Publicado no Infection Control and Hospital Epidemiology [Dez/2011]

Está bem estabelecido na literatura que o uso de luvas reduz a probabilidade de contaminação das mãos dos profissionais de saúde e com isso a transmissão entre pacientes.  Contudo, é fato também que o uso das luvas durante a assistência não substitui a higienização das mãos [HM] pelos profissionais de saúde. A WHO através do seu Hand Hygiene Guideline recomenda o uso de luvas antes do contato com fluídos corporais do paciente, durante a assistência nos pacientes em precaução de contato; reforça que as luvas devem ser trocadas entre pacientes, além de reforçar a HM antes e após o uso das luvas. Profissionais de saúde não têm se adequado a essas recomendações porque invariavelmente utilizam luvas quando estas não são recomendadas e vice-versa. Trabalhos já foram publicados para investigação das taxas de adequação na HM quando luvas eram usadas, porém por diferirem na metodologia escolhida, no tamanho da amostra, serem realizados normalmente em apenas uma enfermaria, etc; não permitiram extrair um consenso sobre o tema.

Pesquisadores do Reino Unido conduziram um estudo multicêntrico para avaliar se luvas eram usadas quando indicadas durante a assistência e para determinar se as taxas de adequação da HM mudavam quando luvas eram usadas ou não pelos profissionais de saúde.

Método: De janeiro a novembro de 2009, o uso de luvas foi registrado por 249 horas em 15 UTIs e 41 enfermarias de hospitais da Inglaterra e País de Gales. Observações diretas sobre uso de luvas e da adequação da HM foram conduzidas para aqueles pacientes localizados em áreas abertas nessas unidades/hospitais, ou seja, pacientes em quartos individualizados foram excluídos do estudo, incluindo aqueles em precaução de contato, bem como as observações provenientes dos profissionais que atendiam pacientes por trás da cortina do leito foram incluídas parcialmente na pesquisa. Essa estratégia teve como objetivo preservar a privacidade do paciente e principalmente de reduzir o efeito Hawthorne. Higienização das mãos seguiu protocolo padrão em todas as unidades/hospitais, estabelecido pelo HHOT versão 1 [Hand Higiene Observation Tool]. O uso de luvas assim como a classificação dos ‘níveis de risco’ no contato com paciente [contato de alto risco, contato de médio risco e contato de baixo risco] seguiram as recomendações da WHO Guideline. Participaram do estudo ‘enfermeiros’, ‘médicos’ e um terceiro grupo classificado em ‘outros profissionais de saúde’.

Alguns Resultados: No geral as luvas foram usadas em 26,2% de todos os momentos de HM observados. A proporção de uso de luvas foi ligeiramente maior nas UTIs do que nas enfermarias. A taxa de uso de luvas foi muito menor nos médicos do que nos enfermeiros nos momentos observados [4,5% versus 31,2%, respectivamente]. Luvas foram usadas em 16,7% de todo contato com paciente classificado como sendo ‘contato de baixo risco’, quando não havia indicação clínica para tal uso. Inversamente, luvas não foram usadas em 21,1% de todo contato com paciente classificado como sendo ‘contato de alto risco’, quando o uso das mesmas era indicado. No geral adequação da HM quando as luvas eram ou não usadas na assistência foi de 53,6%. A taxa de adequação de HM foi menor quando luvas foram usadas. Ajustando essa taxa pelas variáveis: tipo de setor/hospital, momento da HM (antes ou após o contato com o paciente), tipo do profissional e o nível do risco no contato com o paciente (alto, médio e baixo); os pesquisadores encontraram que tanto o tipo de profissional quanto o tipo de setor/hospital estavam fortemente associados entre o uso de luvas e reduzida adequação da HM.

Discussão: Os dois principais achados desse estudo foram – o uso de luvas não estava adequado às recomendações da WHO Guideline (luvas eram usadas quando não indicadas e vice-versa), e que a taxa de adequação da HM foi significativamente pior quando luvas eram usadas. Os pontos fortes desse estudo foram: tamanho amostral grande e o uso da rigorosa e padronizada ferramenta HHOT. A taxa geral de adequação na HM foi desagradavelmente menor que o esperado – 47,7% de todos os momentos dessa prática [valor referido quando contatos “não observados” diretamente pelos avaliadores foram removidos das análises estatísticas], mais ainda assim, foi maior do que aquelas reportadas por diversos estudos, as quais ficaram em torno de 40%.

Conclusão: A taxa de adequação da HM é significativamente pior quando luvas são usadas para todos os momentos de HM, especialmente nos contatos de alto risco e antes do contato com pacientes.

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OBS: Muitas considerações interessantes foram abordadas pelos autores no item “Discussão”. Vale a pena conferir.

Você pode acessar o artigo na íntegra no site acima ou em: Fuller et al _ ICHE Dez2011

                                                                                                                                                                                                                                                 – Kátia Costa


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