Publicado no Annals of Surgery [Mar/2011]

Aproximadamente um em cada dez pacientes vai sofre algum tipo de evento adverso. As consequências desses eventos variam desde danos temporários à morte. Muitos estudos têm sido realizados sobre o tema na tentativa de elucidar a incidência do problema, a natureza, as causas e as consequências desses eventos adversos e erros médicos. Estudos têm demonstrado ainda que quase dois terços dos eventos adversos ocorridos em hospitais estão relacionados a procedimentos cirúrgicos. Para melhorar a segurança do paciente cirúrgico, várias estratégias têm sido propostas, entre elas o uso de check list. Recentemente o uso de check list em sala cirúrgica mostrou estar associado à significante diminuição nas taxas de complicações pós-cirúrgicas, assim como na taxa mortalidade. Por outro lado, estudos têm apontado que a maioria dos erros cirúrgicos ocorre fora da sala cirúrgica.

Um check list de segurança do paciente cirúrgico – SURPASS (Surgical Pacient Safet System) Check List – foi desenvolvido no  início de 2004 na Holanda e vem sendo utilizado desde então nos hospitais. O documento é dividido em vários estágios da trajetória cirúrgica do paciente dentro do hospital – desde a admissão do paciente, passando depois pelo pré-operatório até a alta hospitalar. Todos os profissionais envolvidos nessa trajetória do paciente cirúrgico são obrigados a completar o check list.

Pesquisadores de um Centro Médico Acadêmico da Holanda conduziram um estudo com o objetivo de avaliar qual a proporção e a natureza dos erros cirúrgicos que poderiam ser prevenidas pelo uso do SURPASS Check List.

Método: uma revisão retrospectiva de registros foi realizada usando dados do MediRisk Company – a maior companhia de seguros para responsabilidades médicas da Holanda. O MediRisk assegura 70% de todos os hospitais gerais do país, com exceção para 8 hospitais universitários os quais não são assegurados pelo MediRisk. Todos os registros de erros médicos arquivados como consequência de um incidente que ocorreu de 01/Jan/2004 a 31/12/2005, foram reavaliados. Critérios de inclusão de reclamações de erros médicos foram estabelecidos pelos pesquisadores. A partir do tipo de reclamação dos erros com pacientes cirúrgicos, registros de médicos e enfermeiros e outros documentos legais foram avaliados. Dados extraídos dos registros foram: idade, gênero, departamento do qual houve a reclamação, tipo de incidente, especialidade cirúrgica envolvida no incidente, etc.

A classificação de incidente foi definida em uma escala de um a dez tipos, baseada nos tipos de incidentes descritos na literatura, bem como os fatores contribuintes para esses incidentes. Em seguida, uma comparação foi feita entre os fatores contribuintes dos incidentes e os itens do SURPASS Check List. Quando um fator contribuinte correspondia a um item do check list referido, esse fator era considerado como sendo possível de ter sido prevenido, caso um check list tivesse sido usado. Finalmente, o desfecho de cada incidente foi classificado de acordo com Dutch National Surgical Adverse Event Registration (LHCR).

Alguns Resultados:das 2128 reclamações feitas como consequência de incidentes que ocorreram no período citado acima, 294 preencheram os critérios de inclusão e foram inseridas no estudo. A mediana da idade dos reclamantes era de 52 anos e mais da metade deles era do gênero feminino. A maioria das reclamações foi direcionada à Cirurgia Geral (33%), seguida da Cirurgia Ortopédica (15%). A maioria dos incidentes foi: erro de diagnóstico (26%), erro de tratamento (13%), danos pré-operatórios (20%), lado errado da cirurgia (2%), sítio errado da cirurgia (7%), procedimento errado (6%) e paciente errado (1%). Os fatores contribuintes para os incidentes que estavam presentes em dois terços de todas as reclamações foram: “falha no julgamento” (29%), “falha na vigilância/memória” (16%) e “falha de comunicação entre profissionais de saúde” (16%). Do total de 412 fatores contribuintes para os incidentes, 29% correspondiam a um item do SURPASS Check List, portanto, poderiam ter sido prevenidos caso o check list cirúrgico tivesse sido utilizado. As categorias de fatores contribuintes de incidentes cobertas em larga proporção pelo SURPASS foram: “não aderência para fazer o check list ou outro protocolo”, “falha na comunicação entre profissionais de saúde”, “nenhum consentimento informado”, “informações insuficientes no pré-operatório” e “material/equipamento/instrumentos não presentes”. Analisando o desfecho dos incidentes, 31% conduziram a dano temporário sem reoperação, porém, em mais de um terço dos incidentes (37%) houve necessidade de reoperar o paciente, 29% levaram a danos permanentes no paciente e 3% levaram a óbito. Em 40% dos óbitos e em 29% dos incidentes que levaram a danos permanentes, no mínimo um fator contribuinte era coberto por um item do check list e poderia ter sido prevenido caso o SURPASS tivesse sido usado.

Discussão: dos 94 incidentes que conduziram a danos permanentes nos pacientes ou óbito, 30% poderia ter sido prevenido caso o SURPASS Check List tivesse sido utilizado. O check list poderia ter interceptado aproximadamente 30% dos fatores contribuintes dos incidentes, principalmente nas categorias “cognição” e “comunicação”. Somente 38% dos fatores contribuintes ocorreram dentro da sala cirúrgica, contrariando até agora a maioria dos check list de segurança do paciente cirúrgico, os quais são focados na sala cirúrgica, ou seja, no transoperatório. Algumas limitações do estudo foram apontadas pelos pesquisadores, como por exemplo, o fato de ter sido um estudo retrospectivo e, portanto, a qualidade dos dados dependia da qualidade de registros nos documentos; hospitais universitários não foram incluídos e não foi possível extrair conclusões sobre taxas de eventos adversos ou valores para comparar as especialidades cirúrgicas.

Conclusão: aproximadamente um terço de todos os fatores contribuintes e aceitos como reclamações de má prática profissional em pacientes submetidos a cirurgias, poderia ter sido interceptado pelo SURPASS Check List. Uma considerável quantidade de danos, tanto físicos quanto financeiros, provavelmente poderia ter sido prevenida pelo uso do SURPASS.

Você pode acessar o artigo no site acima ou em: Vries et al_Annals Surgery Mar2011

– Kátia Costa

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