Publicado no The Journal of Hospital Infection [Abr/2012]

Infecções por Staphylococcus aureus resistente [MRSA] aumentam os custos hospitalares devido ao prolongado tempo de internação e de tratamento dos pacientes acometidos.

A aquisição de MRSA em Unidade de Terapia Intensiva [UTI] está associada a fatores de risco clínicos e não clínicos. O controle de fatores de risco clínicos incluem políticas de controle de infecção hospitalar, uso adequado de antimicrobianos e screening de paciente de risco à internação. Contudo, fatores de risco clínicos juntamente com as condições clínicas do paciente não podem ser controlados extrinsicamente. Ao contrário, a maioria dos fatores de risco extrínsecos poderia ser influenciada pelo controle de infecção hospitalar e políticas de planejamento de força de trabalho.

Já está bem estabelecido na literatura que a adequação na prática de higienização das mãos pelos profissionais de saúde contribui significativamente para redução na transmissão de MRSA em UTIs, porém também é bem conhecida a relação entre o déficit de profissionais e as falhas nos protocolos de controle de infecção hospitalar, incluindo a higienização das mãos.

Poucos estudos têm sido conduzidos para quantificar a relação entre déficit de profissionais de saúde ou excesso de carga de trabalho e aquisição de MRSA em UTIs, fora do cenário de surtos. A maioria dos estudos mede déficit de profissionais e excesso de carga de trabalho separadamente e utilizam “leitos ocupados” para mensurar “excesso de carga de trabalho” dos profissionais.

Na Austrália, a maioria dos hospitais mantem a relação enfermeira/paciente de 1:1, porém, quando essa taxa não pode ser alcançada devido à escassez do profissional, um banco de dados de cadastro de enfermeiras interno do hospital ou até mesmo externo [agência] é utilizado para completar o quadro funcional. Quando nenhuma enfermeira se enquadra no perfil profissional exigido, acontece sobrecarga de trabalho, para aquelas enfermeiras presentes no hospital. Elas acabam ficando com mais de um paciente por plantão na UTI.

Pesquisadores da Universidade de Queensland na Austrália conduziram um estudo para explorar a relação temporal entre staff profissional e carga de trabalho e novas aquisições de MRSA em uma UTI de um hospital terciário na cidade de Brisbane. O objetivo foi determinar se a taxa de staff e taxa de ocupação da unidade tinham impacto imediato ou remoto no risco de aquisição de MRSA em uma UTI bem equipada.

Método: Período do estudo foi de 01 de janeiro de 2003 à 31 de dezembro de 2007. A relação enfermeira/paciente nessa UTI é de 1:1 para pacientes requerendo cuidados intensivos e de 1:2 para pacientes aguardando alta para enfermarias e outras unidades. As políticas de controle de infecção são bem instituídas nessa UTI com: dispensadores de sabão, papel toalha, álcool gel e pias por todos os leitos; profissionais são bem treinados quanto aos protocolos de controle de infecção; políticas de isolamento para pacientes transferidos de outras instituições são aplicadas, bem como nos casos de pacientes positivos para MRSA, quando então ficam em sistema de coorte com profissionais de saúde designados apenas para esse ambiente. Pacientes foram rastreados para MRSA através de diversas culturas na admissão, duas vezes por semana durante sua permanência na UTI e no momento da alta. No local de transferência, paciente que apresentava MRSA 48 horas após ter vindo da UTI, o caso era considerado da UTI. Dados do staff de enfermagem foram coletados do banco de dados de catálogo de enfermeiras externas do hospital [agência], também do banco de dados do próprio hospital e das enfermeiras permanentes da UTI; taxa de ocupação, horas de trabalho e outras variáveis relacionadas ao staff, foram coletadas dos registros do hospital. O total de horas das enfermeiras foi o somatório daquelas do banco de dados externo [agência], do banco de dados do hospital e daquelas permanentes da UTI.

Alguns Resultados: Sessenta e um pacientes foram identificados laboratorialmente como casos positivos de MRSA [colonizados ou infectados] nas 51 semanas do período de estudo. A mediana de idade dos pacientes foi de 61 anos [média 58 anos, intervalo 18-85 anos]. A mediana de tempo de permanência na UTI foi de 48 dias [média de 30 dias, intervalo 4-286 dias]. Dos pacientes positivos para MRSA 74% eram homens e 26% mulheres. A média de horas alocadas por leito da UTI foi de 11,5hs [intervalo 9,7-14,1hs] para o staff permanente da UTI e de 11,7hs [intervalo 10,2-14,1hs] para o total do staff [permanente, banco interno do hospital e agência]. [*] “Tanto a análise univariada quanto a análise multivariada não mostraram associação entre horas de staff / taxa de ocupação e novas aquisições de MRSA [diversas variáveis foram incluídas nos modelos, porém nenhuma análise mostrou significância estatística e os odds ratio com os respectivos IC95% não mostraram associação de risco entre as variáveis].”

[*] Minhas considerações.

Algumas Conclusões: Embora o pequeno número relativo de novos casos de MRSA indicou que houve pouco poder de detectar associação entre variáveis relacionadas ao staff de profissionais e o risco de aquisições de MRSA, é provável que staff, ocupação de leitos e excesso de carga de trabalho não estivessem fortemente associadas com o risco de aquisição de MRSA na UTI desse hospital de Brisbane. Os achados desse estudo estão em contraste com outros trabalhos que demonstraram que tanto o déficit de staff quanto o excesso de carga de trabalho estão associados com aquisição de infecções em enfermarias de hospital geral, bem como de Unidade de Terapia Intensiva Neonatal, atribuídas a inadequação com as práticas de controle de infecção hospitalar. Os resultados negativos desse estudo sugerem que a politica de staff e as práticas de controle de infecção hospitalar na UTI do hospital em questão não necessitam ser modificadas no sentido das taxas de novas aquisições de MRSA.

Aartigo na íntegra acesse: Kong_et al JHI Abr2012

Kátia Costa

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