Publicado no Jornal do Brasil em 20/04:

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) entrega hoje ao Ministério Público o relatório sobre inspeção realizada no Hospital Municipal Salgado Filho no dia 12 de abril. A visita foi motivada por denúncia na imprensa que 363 dos 864 pacientes internados por mais de 24 horas na unidade de saúde teriam morrido por infecção hospitalar em 2010.

De acordo com as informações apuradas pela equipe de fiscalização do Conselho, de 1998 a 2006, a taxa mensal média de mortalidade do Salgado Filho era de 148 óbitos. A partir de 2006, o número cresceu para 163. Atribui-se esse aumento à mudança no perfil dos pacientes, já que os grandes hospitais passaram a receber pacientes mais graves, enquanto os casos menos graves eram tratados nas UPAs. A direção sustenta que a taxa de óbitos é semelhante aos demais hospitais da rede pública.

Nos anos seguintes, a taxa mensal de mortalidade foi de 161 em 2007; 158 em 2008; 166 em 2009; 169 em 2010 e 161 em 2011. Na UTI, o número de óbitos anuais foi de 99 em 2008; 91 em 2010; e 103 em 2011; sendo que, destes casos, estão relacionadas com infecção hospitalar 11 mortes em 2008; 9 em 2010; e 11 em 2011. A taxa global de infecção hospitalar foi de 16,25% em 2009; 18,75% em 2010 e 19,28% em 2011. A análise preliminar das estatísticas não mostra aumento significativo na taxa de mortalidade.

Ventilação

A denúncia apontava o uso do ventilador mecânico Inter 5 como um dos principais propagadores da infecção que causou um aumento nas mortes na unidade. O hospital informou que dispõe de seis unidades, duas delas utilizadas para transporte e quatro armazenados como ventiladores reservas. Segundo a direção, o modelo não é impróprio para uso, mas já foi superado por outro mais moderno, e há ainda cerca de 5 mil unidades em uso em todo o Brasil. Durante a inspeção do Cremerj, os ventiladores Inter 5 estavam em manutenção, não sendo utilizados.

A UTI do Salgado Filho conta com 11 ventiladores da marca Vela, em uso desde 2009, que utilizam oxigênio de compressor próprio, independente do sistema de ar comprimido. Mesmo em caso de contaminação do ar comprimido, os pacientes da UTI não seriam afetados.

Na unidade de pacientes graves, são utilizados ventiladores mecânicos da marca Inter Plus Vaps, ligados à rede de ar comprimido. Segundo a Anvisa (resolução RDC 50/2002), o ponto de captação de ar deve estar localizado a uma distância mínima de 16 cm de qualquer exaustão, descarga de bomba de vácuo ou exaustão de banheiro, e ainda a 6 cm de altura do chão. Isto não acontece no Salgado Filho, segundo a direção do hospital, devido à época de construção do prédio. A direção e o chefe de fisioterapia garantem que o sistema é totalmente vedado. O Cremerj acredita que somente uma avaliação técnica de engenharia clínica poderia confirmar as afirmações.

O sistema de captação de ar comprimido conta há 5 anos com filtro de carvão ativado, além dos filtros próprios de cada ventilador mecânico e outro acoplado em todos os circuitos de intubação orotraqueal. Durante a inspeção, o Cremerj verificou que os circuitos de ventilação mecânica da UTI estavam higienizados e armazenados em local específico, e que há uma rotina de limpeza. O quantitativo de médicos e plantonistas atende à resolução 109/1996 do Cremerj e à resolução RDC nº 7 de 24.02.10 da Anvisa.

Segundo a direção do hospital, a Comissão de Infecção Hospitalar envia mensalmente seus dados para a Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil. O hospital prometeu adotar um serviço de inaloterapia para prevenir e tratar afecções brônquicas e pulmonares, e analisar caso a caso todos os óbitos a partir de 2009. O resultado final desta análise será encaminhado ao Ministério Público e ao Cremerj.

 

Nota: conforme mencionei anteriormente, a taxa de mortalidade apresentada era, de fato, irreal. Tratava-se, aparentemente, da mortalidade global no Pronto Socorro, e não da mortalidade por IH no hospital. Por isso é preciso sempre muito cuidado ao analisar informações técnicas repassadas pela mídia. Resta saber se a incidência de PAV está ou não compatível com unidades similares, e se as medidas adequadas para prevenção – em sua maioria, medidas de processo – estão implementadas. De acordo com as informações, o SCIH tem estes dados e tem agido de acordo. Com relação à RDC 50/2002, há 2 considerações: 1) de fato ela não se aplica a construções pré-existentes e 2) não é difícil alterar a captação de ar do sistema de ar comprimido, basta vontade e recursos mínimos.

— Luis Fernando Waib

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