Do site Bonde.com de 02/05:

Uma molécula com efeito antibiótico contra bactérias gram-negativas causadoras de doenças em árvores, como o cancro cítrico, não poderia atuar também em bactérias que atacam pessoas? Mais especificamente: não poderia destruir as temidas KPCs, bactérias multirresistentes, encontradas nas infecções hospitalares, gram-negativas como elas, que andam vitimando pessoas em todo o mundo e são cada vez mais difíceis de combater?

O professor e pesquisador Galdino Andrade, do Laboratório de Ecologia Microbiana da UEL, fez a pergunta e decidiu testar a resposta dada por uma molécula produzida pela bactéria Pseudomonas aeruginosa, com a qual ele vem trabalhando há 10 anos, tendo, inclusive, patenteado o método como a obtém.

Eis que a resposta foi positiva, e o professor se sente agora animado para tentar transpor as muitas barreiras que separam uma descoberta desse tipo, feita num laboratório, da sua transformação em produto comercial de ampla disseminação e uso.

A utilidade que um novo antibiótico teria é inquestionável, segundo Galdino. “As bactérias multirresistentes estão aí, cada vez mais resistentes aos antibióticos em uso, e o número de moléculas antibióticas comerciais novas é mínimo”, informa Galdino. “Trata-se de um grande desafio para a indústria farmacêutica, hoje, descobrir novas moléculas com atividade antibiótica para combater microrganismos”.

O professor não pode garantir que a molécula com a qual está trabalhando é nova – isso será determinado por um laboratório da Alemanha onde está sendo feita a determinação da configuração molecular, através de espectrofotometria de massa de alta resolução –, mas só tem motivos para acreditar que sim. “Por suas características, pela forma como foi obtida, pelas pesquisas que fizemos em sites de depósito de patentes dos Estados Unidos, da Europa, do Japão, do Brasil, existes grande possibilidade de que se trate de uma molécula inédita”. Algumas de suas características já foram determinadas na própria UEL: não é mutagênica, não é fitotóxica, é termoestável (não se degrada a 100 graus) e não se degrada com a luz. Outras estão sendo investigadas.

O caminho percorrido por Galdino, depois da pergunta inicial deste texto (esclareça-se, a propósito, que a diferença entre bactérias gram-negativas e gram-positivas diz respeito à estrutura da parede celular), foi procurar o Hospital Universitário, onde existe uma coleção de bactérias causadoras de infecção hospitalar que foram isoladas lá. Encontrou a colaboração de várias docentes do Departamento de Patologia, Análises Clínicas e Toxicológicas – Márcia Regina Eches Perugini, Eliana Vespero, Floristher Elaine Carrara, Marcilene Pelisson – e obteve material para realizar seus testes.

As bactérias multirresistentes a antibióticos são chamadas de KPCs, sigla de Klebsiella pneumoniae carbapenemase, que diz respeito a um mecanismo de resistência de bactérias a um grupo de antibióticos. Ou seja, são bactérias que, ao adquirir uma enzima, se tornaram resistentes a um grupo de antibióticos, inclusive os mais potentes contra infecções. Costumam ter seu campo de atuação restrito a hospitais, mas nem por isso deixam de oferecer riscos a quem não está internado. “Elas são oportunistas, não pegam pessoas sadias. Estão no hospital porque lá as pessoas são vulneráveis. Mas uma pessoa sadia pode adquirir a KPC no hospital e levar para fora. Você pode ter a KPC, ser sadio, e ela não te causar nada a vida inteira. Mas se você sofrer um acidente, um infarto…”, esclarece o professor.

Então passou-se aos testes, e eles revelaram uma grande eficiência do antibiótico. “Podemos dizer que, em teste in vitro e através de estudos de microscopia eletrônica, os resultados foram excelentes. O nosso produto age e destrói a célula bacteriana. Tínhamos uma coleção relativamente grande de KPCs. Vimos que, em algumas amostras, morreram todas, formaram-se halos imensos, e, em outras, halos menores. Significa que a sensibilidade a esse produto, dentro de uma população, é variável. Mas estamos trabalhando com uma molécula semipurificada, e não pura, na qual havia junto outras moléculas que não têm atividade”, acrescenta Galdino.

Pela experiência do professor, “quanto mais puro for o produto, mais eficiente ele é, e vai matar todas as KPCs”. No próprio laboratório da UEL, já foi obtida uma pequena quantidade da substância pura, cristalizada, mas é a que foi enviada para a Alemanha para que seja feita a determinação molecular. Para chegar a ela, parte-se de um extrato de 200 litros que é submetido a tratamento com solvente orgânico e vai sendo purificado aos poucos, até se poder obter, no final, apenas um miligrama do composto puro.

A pergunta seguinte – prossegue o professor – seria esta: tal produto pode se tornar um antibiótico? “Sim”, responde, ressalvando, porém, que “pode também não se tornar um antibiótico e sim um desinfetante muito eficiente nos casos de infecção hospitalar. Porque temos que fazer uma série de análises exigidas pela Anvisa, para sabermos se esse produto causa problema em seres humanos”.

Quando a molécula estiver identificada, será patenteada, segundo Galdino, que espera encontrar empresas interessadas em colaborar no desenvolvimento do produto resultante de suas pesquisas. “Temos planos de montar uma empresa spin-off (expressão usada para empresas nascidas como resultado do trabalho de um grupo de pesquisa) e produzir”. Para isso, conta com o apoio da Aintec, a Agência de Inovação da UEL.

O professor tem consciência de que será um trabalho longo até que essas coisas se concretizem – “eu estudo essa molécula há 10 anos; talvez demore outros 10…” Será necessário associar-se a uma grande empresa farmacêutica, porque o licenciamento de um produto farmacêutico envolve investimentos de alguns milhões de dólares. “Nem eu, nem a universidade, temos condições de investir nisso”. A UEL detém 70% dos direitos sobre o resultado do trabalho de seus pesquisadores.

Sua maior expectativa, agora, diz respeito às notícias que receberá do laboratório da Alemanha, nos próximos meses. Tais notícias podem representar grandes facilidades. Por exemplo: se a molécula não tiver um peso molecular grande, será possível produzi-la quimicamente, “ao invés de ficar dependendo da purificação de 500 litros de extrato para obter apenas cinco miligramas da substância pura. O custo cairia absurdamente”.

 

Nota: no momento em que mais precisamos de investimento em novos antimicrobianos, um conjunto de crises econômicas e pressão pela quebra de patentes inibe o investimento em pesquisa e desenvolvimento. O custo do desenvolvimento de novas drogas é elevadíssimo e nem sempre resulta em um fármaco comercializável. Não há uma resposta fácil para esta equação, mas o fato é que para algumas infecções já não há alternativas para tratamento. Precisamos, e muito, de iniciativas como a retratada pela Agência UEL.

 

— Luis Fernando Waib

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