Em termos de formação científica, o Brasil ainda tem muito a melhorar. Temos boas universidades e boa produção científica, mas a população em geral carece de ferramentas básicas (educação formal) para compreender, depreender, extrapolar as informações fornecidas pela comunidade científica.

Enquanto cientificamente iletrado, o brasileiro é largamente vulnerável a todo tipo de exploração, desde rudimentares golpes, passando por supostos medicamentos populares (como garrafadas, chás de plantas desconhecidas e quetais) e chegando até mesmo ao poder legislativo. Não sei dizer qual é o mais danoso.

O poder legislativo não está imune à ignorância científica, da mesma forma que não está imune ao lobby. Do primeiro, vimos recentemente a famigerada e ridícula “Lei do Jaleco”, que confunde uniforme com EPI e subverte os conceitos de cadeia de transmissão de patógenos.

Já do lobby profissional, temos agora o exemplo da movimentação dos odontólogos em torno da aprovação de um Projeto de Lei (2.776/2008) que obriga as UTIs a ter à disposição um profissional cuidando da saúde bucal dos pacientes. Embora, acredite, ninguém seja contrário à existência deste tipo de cuidado, é importante que fique claro que até o presente momento a literatura é controversa quanto à diminuição na incidência de  pneumonias, na sobrevida, ou redução na média de permanência. Os estudos existentes são bastante heterogêneos no que diz respeito ao tipo de cuidado, e a maioria cita a higiene oral com clorexidina como padrão de cuidado (o que é normalmente é feito pela enfermagem com bons resultados). E, no entanto, o Projeto de Lei tramita em caráter terminativo, isto é, sem necessidade sequer de ir a plenário. O impacto da medida inócua sobre a estrutura de custos e viabilidade da Terapia Intensiva não foi levado em consideração.

A sociedade, tanto quanto nossos legisladores, precisa melhorar a compreensão dos dados científicos que utiliza para produzir as leis. Caso contrário, estaremos sempre vulneráveis às pressões externas, obrigando milhares de instituições hospitalares a adotar providências sem benefício comprovado, aumentando os custos em detrimento de investimentos realmente importantes – a saber, em melhorias estruturais, por exemplo. Lembrando que estamos diante de uma sequência de eventos mundiais (não apenas a Copa do Mundo), e muitos dos nossos hospitais sofrem para manter minimamente sua estrutura para atendimento da população.

É possível que, na medida em que o conhecimento é produzido, cheguemos à conclusão que, sim!, definitivamente precisamos de odontólogos cuidando dos nossos pacientes sob ventilação mecânica. As leis devem então traduzir este conhecimento em obrigação, não por pressão de um grupo profissional, mas sim porque está estabelecido cientificamente. Com a aprovação desta lei, chegaremos à situação bizarra em que infectologistas não serão obrigatórios em hospitais – nem na CCIH, nem para gerenciar antimicrobianos; mas odontólogos serão.

 

— Luis Fernando Waib

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