Publicado no American Journal of Infection Control [Junho /2012]

A raiva é uma séria doença zoonótica transmitida para humanos através de uma mordida. A transmissão entre humanos é rara e tem sido documentada apenas em casos de transplante de órgãos e tecidos. O risco de exposição ao vírus rábico por profissionais de saúde que cuidam de pacientes com raiva inclui a exposição de membranas mucosas e/ou pele não íntegra, aos fluídos corporais do paciente infectado. A aderência às precauções padrão e de contato com uso de protetores faciais durante os cuidados que podem gerar dispersão de saliva desses pacientes infectados; minimiza os riscos para os profissionais. A raiva humana é uma doença reemergente no norte da América do Sul, mas não foi descrita antes de 2008 na Guiana Francesa, um Departamento Ultramarino da França localizado na costa nordeste desse Continente.

Os pesquisadores tiveram por objetivo avaliar as estratégias implementadas pela equipe de controle de infecção hospitalar com o uso de profilaxia pós-exposição [PEP] e os registros de eventos adversos [EAs] da PEP.

Case Report: Em 27 de maio de 2008 um homem de 42 anos morreu de raiva na Unidade de Terapia intensiva [UTI] do Cayenne Hospital, na cidade de Cayenne, Guiana Francesa. Ele buscou atendimento por 3 vezes nesse mesmo Hospital no período de 14 a 20 de maio no setor de Emergência antes de ser hospitalizado na UTI e esteve em contato com um certo número de profissionais de saúde. A equipe de controle de infecção hospitalar se envolveu para investigar o potencial risco de exposição pelos profissionais de saúde que cuidaram do paciente.

Investigação e Método: A investigação focou nos profissionais de saúde que tiveram contato com o paciente e na avaliação para indicar o uso de profilaxia pós-exposição. Uma lista de potenciais expostos foi gerada usando as escalas de plantões dos profissionais do setor de Emergência, além dos técnicos de radiologia, laboratório e dos funcionários de higienização hospitalar; que trabalharam nos dias 14, 15, 19 e 20 de maio de 2008; e do staff de profissionais da UTI, além de técnicos de radiologia e laboratório desse setor, que trabalharam de 20 a 27 de maio do mesmo ano. Um questionário foi elaborado para registrar os fluídos corporais do paciente, os quais os profissionais teriam sido expostos [saliva, sangue, urina, fezes, secreção purulenta, secreção traqueal, líquor, fluído lacrimal, etc], assim como registro do tipo de exposição [injúria de pele ou membrana mucosa]. Os pesquisadores também exploraram a possibilidade de contato inadvertido relacionado à negligência no uso das precauções padrão e de contato. Definição de “expostos” – profissionais que tiveram contato com fluídos corporais do paciente-caso sem o uso das precauções padrão e de contato. Todos os amigos e parentes que tiveram contato físico com o paciente-caso durante os quinze dias  que antecederam o surgimento dos sinais e sintomas do paciente, também foram considerados “expostos”. Critérios de exclusão do estudo: indivíduos com doença aguda no início da PEP, aqueles com esquema continuado de PEP por outros Centros de Saúde e aqueles que tinham sido vacinados contra raiva previamente.

Profilaxia Pós-Exposição [PEP]: O protocolo Zagreb de vacinação foi aplicado nos indivíduos. A cada dose de vacinação e novamente duas semanas depois da última dose, reações locais e sistêmicas ocorridas nas primeiras 48 horas pós-vacina, foram registradas.

Observação: WHO [World Health Organization] – Protocolo Zagreb de Vacinação Anti-Rábica [3 visitas/4 doses]:
D0 = 1 dose no deltóide direito + 1 dose no deltóide esquerdo
D7 = 1 dose no deltóide
D21 = 1 dose no deltóide

Alguns Resultados: Dos 160 indivíduos identificados como tendo possível contato com o paciente, 100 [62%] eram profissionais de saúde. Baseados na entrevista com os profissionais de saúde, precaução padrão não foi aplicada em 50% dos contatos e precaução de contato não foi aplicada em 40% dos contatos com o paciente. Desse modo, 48% dos profissionais foram identificados como potencialmente expostos ao vírus rábico, sendo 40% do setor de Emergência, 41% da UTI e 15% do Laboratório. Médicos foram os profissionais com as maiores taxas de exposição ao vírus rábico – 68,7%, seguidos dos técnicos de laboratório com 60%. Um total de 90 profissionais de saúde receberam a vacina anti-rábica, sendo que destes, 58% apresentaram algum tipo de evento adverso pós vacinal: dor local – 52%, fadiga – 17,2%, dor de cabeça – 15,5%, etc. Nenhum evento adverso grave foi registrado.

Discussão e Conclusão: A transmissão do vírus rábico entre humanos no cenário de assistência á saúde teoricamente é possível e está relacionada às falhas na adoção das recomendações de precauções padrão e de contato, tanto do CDC [Centers for Diseases Control and Prevention] quanto pela WHO. Através da aplicação do questionário/entrevista foi possível constatar que as precauções padrão e de contato não foram adotadas durante a punção lombar, intubação orotraqueal e aspiração traqueal do paciente infectado. Médicos não usaram capotes, óculos de proteção e máscara durante os procedimentos realizados no setor de Emergência, explicando a alta taxa encontrada nesse estudo, de exposição ao risco de contrair o vírus rábico. Muitos técnicos de laboratório também foram potencialmente expostos ao vírus rábico devido à manipulação de fluídos corporais do paciente. Isso justifica a alta taxa de profissionais de saúde que receberam PEP – 48%. Para ajudar limitar o risco de transmissão do vírus da raiva, a doença deve ser incluída no diagnóstico diferencial para todos os pacientes que apresentem encefalopatia progressiva de etiologia desconhecida.

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Acesse o artigo e outros documentos que estamos disponibilizando sobre o tema em:
Mahamat_et al AJIC Jun2012; WHO Rabies Vaccine 2010; WHO Immunization Rabies 2011               

                                                                                                                                                  Kátia Costa

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