Do site G1, de 17/07/2012:

 

CRM apura más condições de trabalho em hospital estadual em Natal

Denúncia foi feita pelo Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte.
Nove pacientes estão com infecção por bactérias resistentes, dizem médicos.

O Conselho Regional de Medicina (CRM) do Rio Grande do Norte enviou, nesta terça-feira (17), uma equipe de fiscais para avaliar as condições de trabalho no Hospital Estadual Dr. Ruy Pereira dos Santos, em Natal. Segundo o sindicato da categoria no estado, os médicos não têm equipamentos básicos como luvas e máscaras para atuar. A entidade também anunciou que pelo menos nove pacientes estão com infecção por bactérias resistentes a antibióticos.

“Mandamos uma equipe de fiscalização para tomar ciência do que está ocorrendo no hospital. Eles foram lá para saber se as infecções foram provocadas por uma bactéria resistente ou se é uma superbactéria. Amanhã [quarta-feira (18)], um relatório será entregie para mim. Por protocolo, a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) deverá ficar fechada”, disse Jean Carlos Fernandes, presidente do CRM.

Ele informou ainda que as condições de trabalho também foram analisadas pelos fiscais do conselho. “Vamos analisar se há condições de trabalho no hospital, se não havia luvas e máscaras, se não havia isolamento para pacientes com infecção”, disse Fernandes.

Segundo Pedro Raimundo, delegado regional do Sindicato dos Médicos de Rio Grande do Norte, em Parnamirim (RN), “não é possível falar em superbactérias no hospital, podemos falar em bactérias resistentes.”

Ainda de acordo com Raimundo, que também é médico plantonista no hospital, casos como os de pacientes com diabetes, a imunidade fica baixa e isso complica o tratamento. “A patologia da diabetes deixa o sistema imunológico baixo. Por isso a bactéria de alta resistência se torna potente e o tratamento fica mais complexo. Isso leva o paciente a uma sepse. Falta medicamento para tratar os pacientes, como antibióticos de terceira ou quarta geração.”

Segundo Raimundo, o paciente com infecção pelas bactérias resistentes não pode ficar fora do isolamento. “Temos mortes por infecção aqui no hospital, mas não posso falar em números, porque isso é uma estatística hospitalar. Também não podemos falar em superbactérias. Hoje, temos quatro pacientes com acinectobater (bactéria resistente) na enfermaria e um na UTI. Pelo menos outros quatro estão com pseudômonas (bactéria resistente) nas enfermarias.”

Falta de leitos
O hospital tem 84 leitos, mas apenas 79 deles estão aptos a receber pacientes, segundo o delegado do sindicato dos médicos. De acordo com Raimundo, há casos de pacientes que precisam esperar no chão, em macas improvisadas e sem condições de isolamento e higiene.

Outro lado

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) do Rio Grande do Norte informou que não existe surto de superbactérias no Hospital Estadual Dr. Ruy Pereira dos Santos, em Natal.

O órgão disse ainda, no documento, “que considera-se um quadro de surto quando o número de casos de um determinado evento ultrapassa um limite padrão, estabelecido pela Organização Mundial de Saúde. De acordo com a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), os números de infecção registrados no Hospital Ruy Pereira estão de acordo com a quantidade preconizada e acompanhada pela Anvisa”.

Ainda segundo a nota, a secretaria informou que as bactérias (acinectobater e pseudomonas) indicadas pelo delegado do sindicato dos médicos são bactérias oportunistas, que podem se tornar resistentes aos antibióticos e, com isso, causarem infecções em ambientes hospitalares. “Essas bactérias são encontradas em hospitais públicos e privados, em qualquer parte do mundo, e não devem ser confundidas com a Klebsiella pneumoniae (KPC), uma superbactéria de elevada letalidade.”

A Sesap lamentou o repasse equivocado de dados sobre o sistema de saúde pública do estado sem que estes tenham sido efetivamente comprovados, causando apreensão na sociedade.

Como surge uma superbactéria

A KPC não é a única vilã a ser combatida. “Superbactéria” é, na verdade, um termo que vale não só para um organismo, mas para bactérias que desenvolvem resistência a grande parte dos antibióticos. Enzimas passam a ser produzidas pelas bactérias devido a mutações genéticas ao longo do tempo, que tornam grupos de bactérias comuns como a Klebsiella e a Escherichia resistentes a muitos medicamentos.

Outro mecanismo para desenvolvimento de superbactérias é a transmissão por plasmídeos. Plasmídeos são fragmentos do DNA que podem ser passados de bactéria a bactéria, mesmo entre espécies diferentes. Uma Klebsiella pode passar a uma pseudomonas, e esta pode passar a uma terceira. Se o gene estiver incorporado no plasmídeo, ele pode passar de uma bactéria a outra sem a necessidade de reprodução.

No território nacional, além da KPC, circulam outras bactérias multirresistentes, como a SPM-1 (São Paulo metalo-beta-lactamase).

Remédios
Entre os remédios ineficazes estão as carbapenemas, uma das principais opções no combate aos organismos unicelulares. Remédios como as polimixinas e tigeciclinas ainda são eficientes contra esses organismos, mas são usados somente em casos de emergência como infecções hospitalares.

 

Nota(s):

1) A falta de insumos básicos para o atendimento hospitalar, como luvas e outros EPIs, revela uma gravíssima desorganização administrativa, com sérias consequências para a assistência. O fato de faltar luvas, máscaras e até leitos (!) para o atendimento nos faz pensar em como é realizado o controle de estoques, controle de fornecedores, qualificação de materiais e insumos, e assim por diante.

2) Se não há luvas e máscaras, não há “isolamento para superbactérias” (o nome correto é “precauções de contato” para “bactérias multirresistentes”). As precauções de contato significam o acréscimo de barreira mecânica às precauções padrão.

3) Se verdadeira a alegação da matéria, a posição da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) do Rio Grande do Norte é péssima e denota desconhecimento técnico. Não há “limite padrão da OMS” para surtos de multirresistentes. A vigilância de surtos da CCIH determina a existência destes eventos a partir da série histórica da instituição, por média e desvio padrão. Além disso, a introdução de uma nova bactéria multirresistente em uma instituição em que outrora não havia, pode ser considerada “surto” independente dos números. Também não há uma “quantidade de multirresistentes preconizada pela ANVISA” – quero crer que a fala do SESAP/RN foi distorcida pelo jornalista, caso contrário a situação é ainda mais preocupante.

4) Ainda contrariando a SESAP/RN, infecções por Acinetobacter baumannii e Pseudomonas aeruginosa são de extrema relevância e letalidade, a depender dos diversos fatores que cercam uma infecção hospitalar. Tais bactérias podem ser, do mesmo modo que as bactérias produtoras de KPC, resistentes a todos os antimicrobianos e causar infecções intratáveis.

5) Muitas bactérias resistentes a carbapenêmicos apresentam também resistência a tigeciclina e polimixinas. Entretanto, o termo “superbactéria” não é científico, e sim jornalístico e cunhado para vender notícias (e anúncios). Bactérias são multirresistentes quando não são susceptíveis a antimicrobianos de duas ou mais classes, e pan-resistentes quando não respondem a nenhum antimicrobiano.

[LFW]

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