Publicado no American Journal of Infection Control – AJIC

Dez/2012 – Vol.40(10): 960-2 [Schmitt, Cristiane et al]

Aproximadamente 234 milhões de cirurgias são realizadas no mundo com uma prevalência de complicações variando de 3% a 16%. Infecção do sítio cirúrgico tem sido a mais frequente dessas complicações. Mortalidade pós-operatória geralmente varia entre 0,4% a 0,8%, mas pode alcançar níveis alarmantes em torno de 10% nos países em desenvolvimento. Profilaxia antibiótica cirúrgica é uma ferramenta importante para reduzir o risco de infecção da ferida operatória. Apesar de muitos guias publicados sobre essa prática, a aderência a essas recomendações é baixa. Em 2006, um grupo de especialistas em controle de infecção, apoiado pela Divisão de Controle de Infecção Hospitalar do Departamento de Saúde do Estado de São Paulo desenvolveu e validou indicadores de qualidade para mensuração das práticas de controle de infecção, incluindo antibioticoprofilaxia cirúrgica.

O objetivo principal desse estudo foi investigar a adequação à profilaxia antibiótica cirúrgica proposta no Guia elaborado pelo Comitê de Controle de Infecção Hospitalar [HICC] de um hospital do Brasil, usando indicadores de qualidade previamente validados.

Método: Um estudo retrospectivo foi conduzido em um hospital de 200 leitos localizado no Estado de São Paulo, onde em média 500 cirurgias são realizadas mensalmente. Avaliação da qualidade foi apoiada pelo Guia de Profilaxia Antibiótica Cirúrgica, escrito em 2004 pelo HICC, e formalmente aprovado pela Administração do hospital e pelas equipes cirúrgicas. Prontuários de pacientes adultos da neurocirurgia, cardíaca e ortopedia admitidos e classificados como ‘cirurgia limpa’, foram incluídos. [Critérios de inclusão e de exclusão – ver artigo original]. O tamanho da amostra foi baseado no número total de procedimentos de cada especialidade cirúrgica durante os cinco anos anteriores, o que resultou em 748 procedimentos classificados como ‘cirurgias limpas’ para serem acompanhados. Prontuários foram randomicamente selecionados e os dados foram coletados no período de Novembro de 2009 a Março de 2010. O índice de adequação era composto de seis atributos: (1) adequação da indicação antibiótica, (2) tipo da droga, (3) duração da profilaxia, (4) via de administração, (5) tempo do inicio da antibioticoprofilaxia e (6) dosagem da droga. Adequação completa [100%] foi alcançada quando todos os atributos do indicador de qualidade estavam de acordo com os critérios do Guia de Profilaxia Antibiótica Cirúrgica do HICC. Para cirurgias com indicação de profilaxia antibiótica, as autoras avaliaram cada atributo do indicador de qualidade com relação à sua adequação [ver tabelas no artigo original]. Para cirurgias sem recomendação de uso de profilaxia antibiótica, adequação completa foi determinada pela avaliação de apenas um atributo – “adequação da indicação antibiótica”.

Resultados: Do total de cirurgias avaliadas [748], 13,5% eram cardíacas, 17,1% eram da neurocirurgia e 69,4% eram da ortopedia. Adequação completa com o indicador de qualidade ocorreu apenas em 4,9% de todas as cirurgias avaliadas. Considerando as especialidades cirúrgicas, adequação completa ocorreu em 5,8%, 3,1% e 3,0%, respectivamente para ortopedia, neurocirurgia e cardíaca. De acordo com o Guia HICC, 43,4% dessas cirurgias tinham recomendação de não usar profilaxia antibiótica. Para essas cirurgias o índice de adequação foi de 8,7% significando que um grande número de pacientes receberam antibioticoprofilaxia apesar de não haver recomendação no Guia HICC para isso.  O maior número de cirurgias nas quais a profilaxia antibiótica foi utilizada sem indicação do Guia HICC ocorreu entre os procedimentos ortopédicos [91,3%], principalmente nas artroscopias [93,6%]. Todas as cirurgias cardíacas avaliadas foram compatíveis com a indicação de profilaxia antibiótica do Guia HICC. Houve indicação de profilaxia antibiótica pelo Guia HICC em 56,6% das cirurgias. O índice de adequação nesse grupo de cirurgias foi de 1,9%. Avaliando as especialidades, o índice de adequação nesse grupo de cirurgias foi de 3%, 2,4% e 1,0%, respectivamente para cardíacas, neurocirúrgicas e ortopédicas. Apesar da baixa adequação, 92,4% das cirurgias com indicação de profilaxia antibiótica pelo Guia HICC cumpriu a meta de adequação em no mínimo três dos seis atributos avaliados. A “via de administração” foi o atributo com o melhor resultado nas especialidades cirúrgicas e o pior resultado ocorreu com “duração da profilaxia”. O tempo inicial da profilaxia antibiótica ocorreu antes do tempo recomendado em 2,7% das cirurgias avaliadas e depois do tempo recomendado em 12,6%.

Discussão: Os resultados desse estudo estão em acordo com outros encontrados na literatura. Esse estudo mostrou que a ortopedia é a especialidade com melhores resultados com relação à adesão as recomendações do Guia HICC. Contudo, comparada às outras duas especialidades estudadas, pacientes da ortopedia receberam mais profilaxia antibiótica embora não houvesse recomendação no Guia HICC para isso. Entre os problemas relacionados à inadequada profilaxia antibiótica, existe a exposição desnecessária dos pacientes às drogas e potenciais eventos adversos. O baixo índice de adequação não significa que todos os atributos não foram atendidos. Adequação de no mínimo três atributos foi verificada na maioria das cirurgias. Essa adesão parcial pode sugerir que os cirurgiões não estão completamente seguros nas recomendações do Guia HICC. Contrária às expectativas das autoras, nenhuma diferença no índice de adequação associada a características específicas dos pacientes foi encontrada.

Conclusão: Esse estudo mostrou baixo nível de adesão às recomendações do Guia HICC para profilaxia antibiótica cirúrgica e esse resultado deve ser devolvido às equipes cirúrgicas no sentido de melhorar o esquema profilático nos procedimentos cirúrgicos. Conhecer a real adesão ao Guia HICC é o primeiro passo para intervenções educacionais focadas na população alvo. Pela aplicação desses indicadores de qualidade validados as autoras aprenderam o que teria que ser aprendido para melhorar o trabalho sobre esse plano. O presente estudo sugere que diferentes estratégias devem ser aplicadas para promover a melhor prática em antibioticoprofilaxia com maior engajamento dos cirurgiões.

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Se você desejar obter esse artigo, escreva para katia.costa@abih.net.br

                                                                                                                            Kátia Costa

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