Publicado no Infection Control and Hospital Epidemiology [ICHE]   

Jun/2013 – Vol.34(6): 597-604 [Rosenthal, Victor D. et al]

É cada vez mais difícil ignorar os custos que advêm das infecções de sítio cirúrgico (surgical site infection – SSIs) ​​sobre a segurança dos pacientes em termos de dor, sofrimento, cicatrização retardada, aumento do uso de antibióticos, revisão da cirurgia, aumento do tempo de internação hospitalar, mortalidade e morbidade, que também se refletem no excesso de custos hospitalares.Programas de vigilância voltados para infecções nosocomiais (Healthcare-associated InfectionsHAIs), incluindo SSIs, são ferramentas essenciais para evitar a sua incidência e reduzir seus efeitos adversos, permitindo, assim, a redução do risco de infecção nos pacientes. Como é amplamente demonstrado na literatura, em países de alta renda, incluindo os Estados Unidos, a incidência de HAI pode ser reduzida em torno de 30% e de 55% no caso de SSI, através da implementação de uma vigilância eficaz. No âmbito dos países em desenvolvimento, vários relatórios do Consórcio Internacional de Controle de Infecção Hospitalar (International Nosocomial Infection Control ConsortiumINICC) mostraram também que, se a vigilância e as estratégias de controle infecção são aplicadas em países com recursos limitados, as HAIs também podem ser reduzidas de forma significativa.O INICC é uma organização internacional sem fins lucrativos, aberta, multicêntrica, uma rede de pesquisa colaborativa que aplica uma metodologia de vigilância que utiliza as definições padrões usadas pelo National Healthcare Safety Network – NHSN-CDC, o qual reune pesquisadores em todo o mundo com um inestimável benchmarking de dados sobre infecções hospitalares e resistência a antibióticos, e que tem servido de inspiração para o programa INICC. Fundado na Argentina em 1998, o INICC foi a primeira rede de pesquisa multinacional criada para controlar e reduzir HAIs a nível internacional através da análise de dados recolhidos numa base voluntária de um grupo de hospitais em todo o mundo.

O objetivo desse estudo é relatar a análise dos dados de vigilância de SSIs associadas à procedimentos cirúrgicos (Surgical ProceduresSPs), coletados por hospitais de 30 países que participaram do INICC, de janeiro de 2005 a dezembro de 2010. Essa vigilância sistemática de dados servirá como uma ferramenta de benchmarking inicial para as taxas de SSIs dentro dos hospitais em todo o mundo.

Método: De janeiro de 2005 a dezembro de 2010, foi conduzida uma coorte prospectiva de estudo de vigilância multicêntrica multinacional de SSI envolvendo pacientes submetidos SPs em 82 hospitais de 66 cidades em 30 países (Argentina, Brasil, Colômbia, Cuba, República Dominicana, Egito, Grécia, Índia, Kosovo, Líbano, Lituânia, Macedônia, Malásia, México, Marrocos, Paquistão, Panamá, Peru, Filipinas, Polônia, Salvador, Arábia Saudita, Sérvia, Singapura, Eslováquia, Sudão, Tailândia, Turquia, Uruguai e Vietnã), de quatro continentes (América, Ásia, África e Europa). A identidade do membro participante dos hospitais INICC, cidades e países foram mantidos em sigilo, de acordo com a Carta INICC. As taxas de SSIs foram calculadas pelo programa de vigilância INICC baseadas nas definições do NHSN-CDC: incisional superficial, incisional profunda e infecção de órgão/espaço. Profissionais de controle de infecção foram treinados para a coleta de dados em cada país participante. Os dados coletados foram enviados para a sede do INICC (Buenos Aires), onde foram analisados e as taxas calculadas. Para o propósito de análise, os dados coletados foram estratificados dentro de 31 procedimentos cirúrgicos, listados pelo NSNH-CDC [CID9], por exemplo: aneurisma de aorta abdominal [AAA], amputação de membro [AMP], cirurgia cardíaca [CARD], prótese de quadril [HPRO], histerectomia abdominal [HYST], transplante renal [KTP], craniotomia [CRAN], cesariana [CSEC], cirurgia de baço [SPLE], cirurgia de colon [COLO], entre outras [descritas no artigo]. As informações de duração do procedimento, potencial de contaminação e a classificação do índice de risco da Sociedade Americana de Anestesiologia de acordo com a condição física do paciente (ASA), não foram coletadas. Portanto, devido os dados não terem sido estratificados por categorias de risco, os autores agruparam as diferentes categorias de risco incluídos no NHSN-CDC do relatório de 2006-2008 para obter a taxa média de SSI e comparou essa taxa com os resultados do INICC.

Resultados: Os SPs com as maiores taxas de SSI foram VSHN (shunt ventricular – 12,9%), COLO (9,4%) e BILI (cirurgia do ducto biliar, fígado ou pâncreas – 9,2%). As taxas mais baixas foram encontrados em THYR (cirurgia de tireóide e/ou paratireóide – 0,3%) e CSEC (0,7%). A comparação dos dados mostrou que 18 dos 31 SPs (APPY, CBGB, CARD, CHOL, COLO, CRAN, FUSN, FX, GAST, HPRO, HYST, KPRO, LAM, NEPH, THOR, VHYS, VSHN e XLAP), foram associados com significativas taxas mais elevadas de SSIs nos dados INICC do que no relatório NHSN-CDC. Nove (29%) dos 31 SPs foram associados com taxas semelhantes de SSI nos dados do INICC do que no relatório NHSN-CDC, enquanto apenas 4 (13%) dos 31 SPs (CSEC, HER, PVBY e REC) foram associados com taxas menores significativas de infecção nos dados INICC do que no relatório NHSN-CDC. Três SPs associados com o maior percentual de SSI encontrado nos dados INICC (VHSN, COLO e BILI) estão dentro dos cinco SPs com o maior percentual de SSI encontrado no relatório NHSN-CDC (BILI, REC, PVBY, SB, COLO e VSHN), variando de 12,9% para 9,9% nos dados INICC e de 9,9% para 5,6% no NHSN-CDC, respectivamente.Curiosamente, os resultados da Tabela 3 indicam que o risco de infecção por tipo de SP é semelhante no INICC e no NHSN-CDC, mas, conforme revelado pelos dados apresentada na Tabela 2, a incidência de SSI é consideravelmente maior nos hospitais INICC.

Discussão:A comparação entre os resultados deste estudo e os dados reportados pelo NHSN-CDC para 2006-2008 mostrou que, em hospitais INICC as SSIs (58%) associadas com a maioria dos SPs analisados foram muito mais elevadas do que aquelas publicados para os Estados Unidos. Tais taxas de SSIs mais elevadas podem refletir a situação típica do hospital em países com recursos limitados como um todo e várias razões têm sido propostas para explicar esse fato. Os achados deste estudo mostraram uma correlação negativa para a maioria de DA-HAI (Device-associated Healthcare-associated Infection), ou seja, um nível socioeconômico mais elevado foi correlacionado com um menor risco de infecção. Na maioria dos hospitais INICC, a falta de regulamentação oficial é fortemente correlacionada com a variabilidade encontrada no cumprimento das recomendações de higiene das mãos. Por causa de um orçamento limitado, este estudo tem três limitações principais. Em primeiro lugar, não foi possível calcular a categoria de risco do SPs porque não foram coletados os dados de duração de cada SP, o nível de contaminação e o ASA. Em segundo lugar, não foi possível coletar dados sobre o perfil de microrganismos e resistência bacteriana. Em terceiro lugar, devido ao pequeno tamanho da amostra para alguns SPs, estes resultados devem ser interpretados com cautela.

Conclusão: Conforme reportado na literatura, neste estudo a associação entre as taxas de HAIs em paises em desenvolvimento e o tipo de hospital indica uma correlação negativa. Esta relação deve ser amplamente analisada por SSI. Existe, portanto, uma necessidade definida de estudos adicionais sobre este assunto, particularmente em países de baixo nível socioeconômico.

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                                                                                                                   Kátia Costa

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