Do site NE10 (UOL) – comentários no próprio texto, em negrito, devido ao grande número de erros na reportagem:

O Instituto do Câncer do Ceará (ICC) confirmou o óbito de dois pacientes em tratameto na unidade médica devido a bactéria KCP, conhecida como superbactéria. A informação foi divulgada na quinta-feira (15), porém o hospital não informou quando as mortes aconteceram. Além dos óbitos, o hospital confirmou que cinco pacientes estão isolados com suspeita de terem contraído a bactéria.

Não existe uma bactéria chamada KCP. Existe um mecanismo de resistência chamado KPC (Klebsiella pneumoniae carbapenemase), ou seja, carbapenemase da Klebsiella pneumoniae. Trata-se de uma enzima capaz de quebrar moléculas de carbapenêmicos (uma classe de antibióticos), encontrada inicialmente na bactéria Klebsiella pneumoniae (por isso o nome), mas subsequentemente encontrada em outras bactérias. A KPC confere à bactéria portadora resistência a antibióticos importantes, mas não faz dela uma superbactéria. Não apenas pacientes portadores de bactérias produtoras de KPC, como também outras multirresistentes, são submetidos a precauções especiais nos hospitais todos os dias. Não se trata de isolamento, uma vez que estes pacientes não são necessariamente confinados a um quarto privativo, mas de um conjunto de medidas chamado de “precauções de contato”.

A situação moveu o Ministério Público do Ceará (MP/CE), por meio da promotora de defesa da saúde pública, Isabel Porto, a exigir medidas preventivas tanto do ICC como da Secretaria de Saúde do Ceará (Sesa) para evitar novas infecções pela bactéria. O pedido da promotora foi encaminhado na manhã desta sexta-feira (16).

Chega a ser hilário imaginar que um problema técnico complexo, como o enfrentamento de multirresistentes, seja resolvido pela exigência de uma promotora. Como se nenhuma medida de controle fosse adotada, a não ser pela pressão do Ministério Público. É uma distorção: medidas de controle adotadas desta forma são, na melhor das hipóteses, ineficazes. O controle de multirresistentes (e o controle de infecção em geral) só funciona quando alvo de ações sistemáticas e deliberadas de vigilância e contenção.

A Sesa já informou que irá divulgar boletins sobre a situação nas unidades hospitalares e bem como medidas preventivas a serem tomadas nos hospitais. Já o ICC deve ainda se pronunciar sobre as medidas a serem tomadas. O pedido da promotora tem base na cobrança, por meio do MPE, sobre a aplicação das medidas preventivas nas unidades do estado.

O exemplo dos hospitais israelenses no controle de bactérias produtoras de KPC é claro: apenas um conjunto de ações que incluem a busca ativa de portadores, coorte de pacientes e funcionários, precauções de contato e ampliação dos procedimentos de controle ambiental podem ter sucesso no controle de disseminação. No Brasil, esbarramos em problemas crônicos que impedem a efetiva implementação destas medidas – por exemplo, as implicações trabalhistas de selecionar funcionários para acompanhamento de pacientes colonizados.

De acordo com o ICC, os cinco pacientes suspeitos de terem contraído a superbactéria já estão isolados e recebendo tratamento para combater a infecção. O hospital também informou que não há necessidade de outros pacientes interromperem o tratamento. A unidade é a principal rede de atendimento no combate ao câncer no estado.

SUPERBATÉRIA - Em 2010, um surto da bactéria causou medo nos brasileiros. Na época o Ministério da Saúde chegou a confirmar 183 casos da infecção em estados como Paraná e São Paulo, além do Distrito Federal. O número de óbitos chegou a 24 só em São Paulo.

Cepas produtoras de KPC foram isoladas no Brasil há pelo menos 7 anos, o que “causou medo nos brasileiros” foi a reportagem no Fantástico. O número de portadores de KPC nos hospitais brasileiros é muito maior do que este, e o número de portadores de outras bactérias resistentes a carbapenêmicos é infinitamente superior.

A bactéria conhecida como KCP (Klebsiella pneumoniae carbapenemase) é um mecanismo de resistência da bactéria a um determinado grupo de antibióticos. Ao ganhar resitência, alguns destes remédios, até mesmo os mais fortes, não surgem efeito.

Mesmo sabendo o significado da sigla, o repórter insiste em invertê-la.

Os pacientes hospitalizados com imunidade baixa são o grupo de maior risco. A transmissão pode acontecer por contato direto, como toque ou o uso de objetos. Lavar as mãos com água e sabão, além do uso de álcool em gel é uma das formas de se prevenir.

 

Veja mais reportagens sobre KPC em Fortaleza/CE:

Diário do Nordeste

Jangadeiro Online (vídeo)

 

– Luis Fernando Waib

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Publicado no Infection Control and Hospital Epidemiology:

Um regime de gentamicina e colistina testado em pacientes colonizados por Klebsiella pneumoniae resistente a carbapenêmicos se mostrou efetivo na descolonização do trato gastrointestinal.

Veja o artigo completo no site do periódico ou no RIMA.

Veja o resumo aqui.

 

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Da lista do Julival:

Artigo publicado na Clinical Microbiology and Infection relata surto em 2 hospitais italianos com isolamento de 8 cepas de Klebsiella pneumoniae resistentes tanto a carbapenêmicos quanto à colistina.

Vale a pena ficar atento a cepas com perfil de pan-resistência, pois nada impede sua disseminação em território brasileiro.

(Valeu, Julival!)

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